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por Erik Haagensen Gontijo

Nada mais natural que um pobre de direita

Ou um “classe média”; e o que dizer do rico? Nada mais sobrenatural (sim, esse é o termo) que pobres, classe-médias e principalmente ricos de esquerda.

Antes que pensem que sou um naturalista maluco, quero dizer que não me refiro à nenhuma naturalidade biológica, mas sim a que decorre da atual forma social da vida humana.

Estava eu na fila do banco e de repente escuto o papo de um cara com uma senhora: “Votei no Aécio, mas eu queria mesmo era que a Marina ganhasse e colocasse fogo no circo” [santa inocência!…].

Deu aquela coceira de falar: “ah, quer dizer que vc queria que a Marina ganhasse, mas votou no Aécio… ok, toma aqui seu certificado de quadrúpede”.

Enfim. Para além dessas “lógicas singulares” que dão a consistência de uma sopa de gordura ao pensamento dos que estão aí como bois de carga (e são muitos, podes crer), é interessante notar que a galera “politizada” fica estupefata em constatar que o povão vota na direita e sustenta bandeiras as mais toscas e brutais, até mesmo contra seus próprios interesses – supondo que os indivíduos tenham alguma noção mínima de quais sejam estes, ou melhor, que não façam a velha confusão entre seus mais baixos e imediatos instintos burgueses e a consciência de si mesmos enquanto indivíduos sociais, o que demanda uma boa dose de reflexão.

Ser de direita é algo natural para quem nasce e vive trivialmente na sociedade capitalista; ora, não se pode esperar que o pensamento não acompanhe a forma de vida do indivíduo, e a forma de vida no capitalismo é aquela que coloca todos em concorrência e isolamento uns contra os outros. Vida selvagem, pensamento idem.

É preciso ter alguma sensibilidade (inata ou provocada, não vem ao caso) pra notar que essa forma de vida não é, digamos assim, tão orgânica quanto a naturalidade haveria de ser, e que poderia ser bem diferente e melhor, para então poder começar a fazer a crítica e se tornar de esquerda, e se lançar a um verdadeiro processo de educação da sensibilidade e do pensamento, de superação da naturalidade social posta para cada indivíduo desde seu nascimento (ou mesmo desde sua concepção).

Tudo se educa em nós, mas educar-se é uma questão que passa por uma necessidade que o indivíduo pode sofrer ou não. Além disso, este processo pode ser mais ou menos lento, doloroso e sempre contraditório, uma vez que a individualidade deixa de corresponder (ainda que tal correspondência seja brutal) à sociabilidade vigente, o que pode não ser muito confortável. E a vida na selva de pedra já é dura demais para ainda suportá-la sem as flores das ilusões e do autoengano, que encobrem e enfeitam os grilhões! O indivíduo pode facilmente preferir embotar a sensibilidade e sabotar o pensamento, gozar e acreditar no próprio cinismo e se dar por satisfeito, ou melhor, por adaptado e convencido de sua escolha.

Daí que não há nada de estranho no pobre que é de direita. Extraordinário seria o contrário.

Aliás, nem é estranho que, ainda que assuma uma posição crítica consciente, muitas vezes o indivíduo vacile e pense ou aja de forma machista, autoritária, possessiva, egoísta, fazendo piadinhas “politicamente incorretas” contra os mais fracos etc. Pois é preciso lutar contra o fascista que mora dentro, nascido na naturalidade social burguesa, e matá-lo no paredão da autocrítica: vencer-se a si mesmo cotidianamente, dado que a sociabilidade cotidiana é determinante da individualidade, de um modo ou de outro.

Isso é só o começo da longa e tortuosa trilha rumo à superação da atual forma de vida, trilha que só pode ser escalada em meio às mais complexas interações com outras individualidades dispostas à luta e a maioria contrária a ela. Pois o próprio indivíduo é, em si mesmo, um complexo, universal e contraditório nódulo na imensa rede humana tecida social e historicamente, em meio a toda sorte de outras tantas contradições que perfazem na vida prática a essência e existência humanas.

Superar as velhas contradições e alcançar o patamar de uma nova humanidade, tanto mais autônoma quanto mais se desgarra da heteronomia natural, e abrir os horizontes de uma vida autêntica: a mais radical, profunda, desejável e razoável tarefa humana. Eis aí a razão de ser da esquerda – mudar o mundo que criamos e recriamos o tempo todo e em sociedade.

Não se trata de esperar que os que virão façam isso, quando nós mesmos estamos vivos aqui e agora. Essa é a tarefa histórica que dá propósito e sentido para a vida. E o que poderia ser mais radical do que estar vivo?

“Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente. Se o homem é social por natureza, desenvolverá sua verdadeira natureza no seio da sociedade humana” – Marx.

Erik Haagensen Gontijo

Erik Haagensen Gontijo, mestre, licenciado e bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – UFMG, defendeu dissertação intitulada “Natureza, Sociedade e Atividade Sensível na Formação do Pensamento Marxiano” sob orientação da Profa. Dra. Ester Vaisman. Professor de Filosofia no ensino superior e médio do IFMG.

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9 Comentários

  1. carlmerhy@yahoo.com.br'
    Carlos Alberto Merhy Silva
    6 de janeiro de 2016 at 13:20 — Responder

    Um belo texto, uma percepção real dos males, que,afeta o cotidiano, de quem busca entender o por que dos porquês, do cidadão desprovido de miolos, que, não percebe os males causados a si mesmo e digo mais!… Poucos conseguem ou não interessam ler o texto preferindo acreditar nos contos Carochinha. Meus parabéns por proporcionar-me estes momentos agradáveis com seu belo texto.

  2. harmonicamente@bol.com.br'
    Lucas
    7 de março de 2016 at 15:42 — Responder

    Sou pobre de direita, esqueceu de dizer que a maioria o sao por valores como religiao,e familia, evidente, paga o preco por defender tal atitude,que seja ser explorado pelos esquerdistas ricos,mas o preco vale a pena, afinal,quem gostaria de ser rico e ver o filho morrer de overdose, a filha sendo marmita de maconhero, e o marido um Cornudo tipo seu Suplici, mas isso nao e o pior, a maioria dos esquerdistas sao ricos,mas gostam mesmo e de der o CU
    kkk

    • israelc97@gmail.com'
      20 de setembro de 2016 at 23:13 — Responder

      Você deveria, primeiro, aprender a escrever para depois criticar e ofender aos outros. Você é portador de ideia limitada, tem o cérebro corroído.

  3. abraao_r@hotmail.com'
    Abraão
    10 de julho de 2016 at 02:47 — Responder

    Qual pobre que vota na direita? por acaso o PSDB é direita? E que eu sabia, nascer e viver no Brasil nunca foi nascer e viver em uma sociedade capitalista…

  4. anderscrz2@hotmail.com'
    Anderson
    18 de setembro de 2016 at 15:43 — Responder

    Olá amigo,
    Tenho uma página no Facebook (Intelectual do Gueto), tento fazer posts simples, mas que propiciam as pessoas a refletirem sobre a realidade, poderia fazer um post sobre esse seu texto colocando os devidos créditos?
    Obs: Já fui pobre de direita e passei exatamente por essa autocrítica dolorosa que você fala.
    Abç.

  5. adw.kn@medarbejdere.au.dk'
    Ashley
    27 de setembro de 2016 at 19:33 — Responder

    “é preciso lutar contra o fascista que mora dentro, nascido na naturalidade social burguesa” …A burguesia existe inata ou provocada?… 😀

  6. varzeag@hotmail.com'
    paulo
    3 de outubro de 2016 at 14:42 — Responder

    O pobre não é de direita e nem é masoquista, ele é enganado por uma estrutura de poder que o imbeciliza, aliena e manipula, deixando-o individualista, desmobilizado, desorientado e incapaz de perceber as causas dos efeitos sociais, políticos, econômicos e ambientais nocivos que impactam a vida, e essa causa é a corrupta visão e pratica de mundo da direita. No passado a força dessa estrutura de poder era o extermínio, a escravidão, as repressões escancaradas, hoje no advento do capitalismo e da plutocracia disfarçada de democracia, os instrumentos de controle são mentais, os instrumentos de controle são: o modelo de comunicação dominado pela plutocracia, o modelo educacional do mercado, o modelo politico do poder econômico, o sistema jurídico elitista e as religiões da ‘teologia” da prosperidade material, enfim, é uma super estrutura de poder em que todos os instrumentos falam a mesma linguá e defendem os mesmos interesses, que são a manutenção do status quo de poder e concentração, concentrar para poder, e poder para concentrar cada vez mais, e isso só prospera se a grande massa estiver dominada de alguma forma, ou sobre repressão física, como mais escancarado no passado, ou com repressão psicológica, tanto na disseminação do medo, como na venda de ilusões e falsas esperanças. Dai surge o pobre de “direita”, na verdade é o pobre dominado pela direita que não sabe a causa de sua miséria, ou seja, não sabe o que é direita, muito menos sabe identifica-la e muito menos ainda sabe qual é a visão de mundo dessa mentalidade de direita, não sabendo isso, não sabe como transformar a realidade, e fica preso a um ciclo permanente de falsas ilusões e esperanças, que no caso da “democracia” (plutocracia de fato) capitalista se resume a esperar eleições sucessivas, na esperança de sair da situação difícil, que não sairá de fato, pois o modelo não esta sendo combatido, por falta de combatentes, pois eles estão mentalmente inoperantes, e também como se não bastasse, fisicamente debilitados pela miséria, esse é o modelo de dominação atual da direita, no passado a força física das armas e chibatas, hoje a repressão mais velada e o grande instrumento psicológico, aquele que faz os escravos não terem consciência de que são escravos, que fazem os que sofrem não terem consciência da causa de seu sofrimento e que faz todos esses colaborarem com seus algozes e reconduzi-los sempre ao poder .

  7. Babaquice@hotmail.com'
    Revoltado
    21 de outubro de 2016 at 00:50 — Responder

    Quanta palhaçada! O motivo pelo qual é natural ser de direita é que o capitalismo é uma forma natural de organização para viabilizar a vida em sociedade. Além disso, quem, em pleno gozo das faculdades mentais, quer ter sua liberdade – até de pensar – cerceada pelo Estado. Socialismo é uma aberração, nunca deu certo e nunca dará. Só produz morte e miséria.

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