Gabinete reformulado terá políticos com posições radicais nas pastas de Justiça, Defesa e Educação; ministra da Cultura adiantou: ‘se for necessário, censurarei’

O novo governo de Israel, cuja formação foi anunciada na semana passada, inclui uma seleção inédita de politicos conhecidos por suas posições racistas e cujos antecedentes não prometem boas notícias nem para os palestinos tampouco para liberais, democratas e humanistas israelenses.

 

Justiça

O ápice dessa guinada em direção à ultradireita radical se materializa na figura de Ayelet Shaked, do partido de extrema-direita Habait Hayehudi (Lar Judaico), nomeada ministra da Justiça.

Em julho do ano passado — durante a última ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza, batizada de Operação Margem Protetora, que deixou um saldo de mais de 2 mil civis mortos — , Shaked postou no Facebook um artigo de um dos ideólogos da extrema-direita, Uri Elitzur, defendendo a matança de mães de “terroristas” palestinos para que não continuem a criar as “pequenas serpentes”. Segundo o autor, não só os filhos devem morrer, mas suas mães também devem “acompanhá-los”. Junto ao artigo, Shaked acrescentou que o texto, escrito por Elitzur 12 anos antes, permanecia “relevante”.

A postagem da nova ministra rapidamente gerou criticas incisivas que a levaram a deletar o material da rede social. Perguntada pelo jornal The New York Times após a nomeação, Shaked afirmou que a postagem foi um “erro”. “Sou humana, cometo muitos erros”, disse a ministra em entrevista publicada dias atrás.

Ayelet Shaked, do ultranacionalista Lar Judaico, será ministra da Justiça

Ayelet Shaked, do ultranacionalista Lar Judaico, será ministra da Justiça

Cultura e Esportes

Sob a mesma linha ultradireitista será regida a pasta da Cultura, a ser chefiada por Miri Regev, uma das líderes do partido governista Likud. Regev ganhou notoriedade ao advogar pela expulsão em massa dos refugiados africanos de Israel — a política chegou a classificar os refugiados da Eritreia e do Sudão como “um câncer no corpo da nação israelense”.

A nova ministra da Cultura também é defensora ferrenha do direito de judeus orarem na Mesquita de El Aqsa, em Jerusalém, local que abrigava há cerca de 2.000 anos o Templo Judaico. O acesso e o controle do enclave religioso foram tema de forte controvérsia no fim de 2014, quando a presença de judeus no local gerou revoltas entre palestinos, que culminaram com ataques violentos a sinagogas e mesquitas.

Após a nomeação, que causou revolta entre artistas e intelectuais locais, Regev já afirmou que não descarta a censura a obras artísticas. Em entrevista ao site de noticias Ynet, a nova ministra disse que será “ministra de todos, mas devem ser estabelecidos limites”. “Se for necessário censurar, o farei”, acrescentou. Logo depois de assumir o cargo, a ministra da Cultura já estabeleceu os limites: “Não apoiarei qualquer dano à imagem do Estado de Israel, dos soldados das Forças de Defesa e de nossa tradição como Estado judaico e democrático”, declarou.

Também encarregada da pasta dos Esportes, Regev anunciou que sua primeira missão será barrar a iniciativa da Autoridade Palestina, que pedira à Fifa (Federação Internacional de Futebol) o afastamento de Israel.

Defesa

O vice-ministro da Defesa é o rabino Eli Ben Dahan, do partido Lar Judaico, que em agosto de 2013 disse à radio Radius que os palestinos “não são humanos mas sim ‘animais humanos'”. Segundo o novo vice-ministro, que será responsável pela Administração Civil dos territórios ocupados, “o povo palestino não foi educado para a paz e não deseja a paz”.

Em sua nova função, Ben Dahan terá o controle de todos os aspectos da vida de milhões de civis palestinos na Cisjordânia, inclusive licenças de construção, permissões para ir e vir, acesso a fontes de água, infraestrutura e estradas. O ministro da Defesa do governo anterior, Moshe Yaalon, do Likud, que juntamente com Netanyahu comandara a ofensiva militar em Gaza entre julho e agosto de 2014, continuará no cargo.

Educação

Naftali Bennett, líder do partido nacionalista religioso Lar Judaico, é o novo ministro da Educação. Durante sua gestão ele deverá encaminhar mais verbas para fortalecer o que chama de “valores nacionais” no sistema de Educação. Bennett defende a anexação de 60% da Cisjordânia a Israel e é explicitamente contra a ideia de um Estado Palestino independente, já tendo afirmado diversas vezes que não há solução para o conflito entre os dois povos.

Assista ao vídeo da campanha eleitoral de Naftali Bennett, do ultranacionalista Lar Judaico:

No entanto, segundo o novo ministro da Educação, Israel poderá manter a ocupação indefinidamente, pois, para ele, o conflito com os palestinos não é mais do que “um fragmento no traseiro” da nação. O próprio Bennett explica a metáfora: o político tem um amigo que, durante o serviço militar, ficou ferido com um estilhaço de bomba que perfurou seu traseiro. “É incômodo”, disse, “mas dá para viver com isso e se retirasse o fragmento correria o risco de ficar aleijado”.

Comunicações

O primeiro ministro, Binyamin Netanyahu, decidiu manter em suas mãos a pasta das Comunicações, com o objetivo de controlar a midia do país. Segundo analistas locais, as principais metas do premiê são fechar a emissora televisiva mais critica à sua politica — o Canal 10, e proteger o jornal Israel Hayom (Israel Hoje) que é distribuído gratuitamente e defende seu governo de maneira incondicional. O jornal, que hoje em dia é o mais lido no país, é financiado pelo bilionário americano de extrema-direita, Sheldon Adelson, que também apoia a corrente mais conservadora do Partido Republicano nos Estados Unidos.

Em vista da composição do novo governo, o analista politico Raviv Drucker, do mesmo Canal 10, e um dos mais odiados por Netanyahu, escreveu em artigo no jornal Haaretz que “nos resta a sensação de náusea, constrangimento, vergonha, e o sentimento de que este governo, esta coisa — seja o que for — não é nossa”.

Governo mais frágil do que o anterior

O chefe do Partido Trabalhista e líder da oposição, Itzhak Herzog, chamou o novo governo de Netanyahu de “circo”. “Nenhum líder decente entraria neste circo montado por Netanyahu”, afirmou Herzog em discurso no Parlamento e com essas palavras descartou definitivamente a possibilidade de se aliar ao premiê e ajudá-lo a ampliar sua base extremamente frágil de apoio legislativo.

Netanyahu, que resolvera antecipar as eleições para consolidar a “governabilidade” se encontra agora com uma base de apoio bem mais estreita do que tinha antes das eleições. “Não vou mais tolerar oposição que venha de dentro do meu próprio governo”, dissera o premiê, à época.

Seu governo anterior se baseava em 68 deputados, mas agora, após as eleições, ele conta com apenas 61 — estreita maioria entre os 120 assentos do Knesset. Nessas circunstâncias se espera que a duração do novo governo seja curta, pois basta a deserção de um ou dois deputados para derrubar o premiê do poder.

Enquanto durar o governo, os 60 apoiadores de Netanyahu não poderão ficar doentes nem viajar para o exterior, pois correm o risco de levar a coalizão governamental a derrotas, caso moções de desconfiança sejam apresentadas pela oposição.

(*) Guila Flint cobre o Oriente Medio para a imprensa brasileira há 20 anos e é autora do livro ‘Miragem de Paz’, da editora Civilização Brasileira.

Fonte: Opera Mundi

Guila Flint

Guila Flint é jornalista brasileira residente em Tel Aviv. Cobre as questões do Oriente Médio para a imprensa brasileira desde 1995. Em 2000, lançou, junto com a socióloga Bila Sorj, o livro “Israel, Terra em Transe”. É correspondente da BBC Brasil em Israel desde 1997.

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