Uma semana depois de o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ter anunciado a suspensão da chamada reorganização escolar, os secundaristas contrários a esse plano ainda estão mobilizados. Ao menos 120 escolas ainda seguem ocupadas, uma grande manifestação ocorreu na última quarta-feira, e outros travamentos pelas vias da cidade se repetiram. Mas, o movimento já começa a dar sinais de esgotamento, pois o número de escolas ocupadas já caiu significativamente – eram 200 até a semana passada.

Essas mobilizações nas ruas, aliadas às notícias de manifestações que terminaram em forte repressão policial, estão fazendo parte da sociedade, antes simpática à causa, questionar: se Alckmin anunciou a suspensão do plano, por que os secundaristas seguem mobilizados?

Uma das repostas está na própria pergunta. Para os estudantes, suspender um plano que prevê o fechamento de ao menos 92 escolas não atende ao que tem sido pedido por eles. A reorganização escolar deveria ser cancelada, eles dizem em coro. Pedem, porém, algo que legalmente não é possível de ser feito. Não existe um decreto para garantir que um plano não seja nunca concretizado.

Por outro lado, a maneira como estava sendo conduzida esta reorganização, ausente de diálogo, de maneira vertical e às pressas, é uma razão para essa falta de confiança dos estudantes em relação ao Governo. O ex-secretário de Educação, Herman Voorwald, destituído do cargo no mesmo dia em que Alckmin anunciou a suspensão do plano, não demonstrou grande abertura ao diálogo ao longo da crise. Tampouco Alckmin o fez. Isso criou nos alunos um sentimento de desconfiança, de incerteza sobre o que o governador dizia quando anunciava a suspensão do plano.

Outro ponto que, segundo os coletivos, mantém os alunos mobilizados é pela garantia de que os estudantes que foram matriculados nas outras escolas – mais de 300.000 alunos seriam remanejados com a reorganização – sejam rematriculados em suas escolas de origem. A secretaria de Educação garante que isso está ocorrendo. Diz também, por meio da assessoria de imprensa, que em cada escola ocupada há uma negociação própria dos dirigentes com os alunos.

Em algumas unidades, os secundaristas pedem que a dirigente de ensino entregue uma carta se comprometendo com tópicos como o não fechamento daquela escola, e que nenhum aluno, pai ou professor apoiador do movimento, será perseguido. Foi o que ocorreu na escola professor Sílvio Xavier Antunes, na zona norte de São Paulo, desocupada na quarta-feira após uma carta de compromissos ser assinada pela dirigente de ensino da região. Os alunos, por sua vez, assinaram um termo de entrega e registraram, em imagens, que a escola estava sendo desocupada em boas condições de organização e limpeza. Tudo devidamente decidido e votado em assembleia prévia.

Outra questão que mantém esses estudantes nas ruas é a repressão policial. Eles pedem que os policiais que reprimiram os atos nas últimas semanas sejam punidos. Em duas semanas, ao menos 40 pessoas foram detidas. Todas elas já liberadas, mas há denúncias de violência física e verbal, além do uso de bombas de efeito moral nas ruas e avenidas da cidade.

Por último, é mais fácil desmobilizar um grupo derrotado do que vitorioso, o que explicaria a demora para que as ocupações terminassem. A vitória dos estudantes na semana passada serviu como uma espécie de combustível. “O projeto de reorganização foi só o estopim para as mobilizações, pois os problemas na educação pública são muito maiores”, dizia um panfleto distribuído na manifestação desta quinta, assinado pelo Comando das Escolas Ocupadas. “A luta dos estudantes está só começando: queremos salas menos lotadas, maior salário e contratação de professores, melhor infraestrutura nas escolas e participação democrática da comunidade nas decisões escolares.”

Esgotamento

As questões levantadas pelo Comando das Escolas apontam para um esgotamento da educação pública. E esse é mais um item que alimenta a pauta das mobilizações. As lotações nas salas de aula, como lembra o material dos estudantes,contradizem um dos argumentos do Governo para a reorganização: que a demanda pela escola pública caiu nos últimos anos.

Um levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo no mês passado mostrou que ao menos 15% das escolas estaduais de São Paulo têm salas de aula superlotadas, enquanto a média nacional para a superlotação é de 9,6% das escolas. Segundo uma resolução de 2008 da própria secretaria de Educação do Estado, a média de alunos por sala deve ser de 30 no fundamental 1, (1º ao 5º ano), 35 no fundamental 2 (6º ao 9º ano) e 40 no ensino médio.

Além disso, neste ano ocorreu a maior greve de professores da rede estadual da história. Foram três meses de paralisação. A adesão não foi de 100% da categoria, mas, ainda assim, milhares de alunos ficaram um bom tempo sem aula. Essas e outras questões mostram que o sistema educacional brasileiro, por si só, apresenta razões para protestar.

 

Marina Rossi

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